domingo, 31 de maio de 2009

Queros e não queros



Preciso de algo novo. Urgentemente. Sufoca-me o antigo, o previsível. A eterna aparência do novo, mas tão, tão antigo, repetido em eternos ciclos. Quero algo que nunca vi. Sensações novas, nunca sentidas. Palavras novas, as que ainda nem existem. A surpresa até de mim mesma. Quero olhar no espelho e não mais me ver, não mais te ver. Quero algo nunca visto. Quero uma alma nova, uma alma sem história. Quero viver um novo canto, não apenas cantá-lo ou ouvi-lo. Um novo canto é preciso, mesmo que tenha que viver o desencanto. Algo cru, e ao mesmo tempo maduro. Profundo, sem enfeites ou alegorias. Sem véus de sonhos. Sem aromas de jasmins ou rosas vermelhas. Sem vôos de colibris ou bucólicos regatos. Quero novos lugares, novas ruas, novas geografias. Estações, salas de embarque, quartos. Quero costas arranhadas no muro. Nos becos escuros. Quero suor e poros. Sangue e veias. Rugas e cabelos brancos. Peles e músculos, mesmo que algo flácidos. Não quero anjos e demônios, príncipes e princesas, fadas e aos duendes. Quero gente. Riso e choro. Não quero figuras de linguagem ou licenças poéticas. Até prefiro o palavrão, desde que seja novo, e sentido. Quero apenas a crueldade da verdade, com toda a sua maldade. As piegas bondade das frases feitas dos livros de auto-ajuda. Quero o insensato, o imprudente, o risco. Deixemos a bondade, a certeza, a sensatez para os fracos de espírito. Tampouco quero espíritos. Quero carne. Não mais quero amor inventado, paixão construída na lua. Quero sexos colados, atados, molhados. O meu da seiva tua, o teu da minha. Não mais quero a poesia – só a prosa, a minha, a tua, a nossa. Ainda que feia, e mentirosa. Como toda verdade. Só na verdade se goza. No resto, orgasma-se – é apenas masturbação.

Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto. Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte. O viajante que percorreu toda a terra não encontra de cinco mil milhas em diante novidade, porque encontra só coisas novas; outra vez a novidade, a velhice do eterno novo, mas o conceito abstracto de novidade ficou no mar com a segunda delas.” (Fernando Pessoa).