Confesso, criastes em mim uma alma atormentada,E por mais que eu a deixe trancada em casa,
Encontro-a sempre gritando pela estrada,
Sem mascara debaixo do véu, de cara lavada.
Cavo, cavo, cavo, nunca encontro nada,
Nas unhas cheias de barro, abismo é o rumo,
Com as mãos ensangüentadas, engulo-o,
Inútil, sempre caio mais fundo. E gemo calada.
Sangue de verdade que corre nas veias, e incendeia,
Se verdade verdadeira ou mentira deslavada, eu ouço
Palavras que doem, corroem, envenenam-me a alma,
São sempre elas que me lançam ao abismo, de novo.
Se por fora iceberg, por dentro vulcão,
Luz e treva, transparencias, contradição,
Não sendo santa, a paixão torna-me insana,
Infinita e imperfeitamente humana.
Que amados sejam os consistentes, os iluminados,
Os dignos dos sussurros, em dedos entrelaçados,
Nunca enlouquecem, não gritam, são os abençoados,
Por suas sanidades, todo o meu louco reinado.
É justo, sobrar para os loucos, os horrores, as dores,
O jogo interminável, escrito em tinta dágua,
Que escorrega fugidia, volúvel, diáfana
Facil evapora ao subir dos calores.
E assim, vivendo a metade de um destino,
A meio pulmão, sem nenhuma unção,
É que outra vez, falta– me a respiração
Que me acabo e desago, sou só desatino.
Sei bem que é minha, somente minha,
Esta tragicômica ópera de um unico ator,
Sei tambem, é justo, que ninguém se importa,
No fundo, todos temos as nossas óperas.
Importa é jogar, este jogo de azar, que é amar sempre,
Cair e levantar, mesmo que eu fique demente
Mas, nunca, nunca mesmo parar, nem mesmo lamentar
Afinal, é no jogar que consigo teu olhar....
"Algumas pessoas nunca enlouquecem...Que vida horrível elas devem levar..."(Bukowski).
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