quarta-feira, 23 de setembro de 2009

David, um retrato do simples e do direto


 “Vera... “it is amazing what we do with our own lives…”
  Este não é um relato sensual. Apenas lembrei-me do David K., um amigo de longa data, e deu-me vontade de registrar as lembranças que tenho dele. Com ele, aprendi três grandes lições (não que as use , tenho que confessar!). Aprendi sobre o valor da simplicidade, da importância da gente se conhecer (e isso não tem nada a ver com auto-ajuda!), e o reconhecimento do nosso papel na construção da nossa própria historia de vida.
Não escreverei na sua língua nativa, pois sei que não existe nenhuma chance dele ler. Ha uns cinco anos atrás perdemos contato, mas sei que dificilmente mudou a sua forma de ser. Não é afeito a “modernidades”, como diria ele – por isso sei que não é do tipo que consulta a internet por lazer. Se ainda é o mesmo David que conheci, sobre o que ocorre no mundo, obtém informações do NY Times, que lê diária e pontualmente das 7 as 8 da manha, depois de tomar seu chá de ervas com leite . No máximo, a utiliza para o correio eletrônico e para acesso ao mundo acadêmico e artigos científicos.
Conheci David na universidade onde cursavamos pós-graduação, e onde convivemos por quatro anos. Fomos grandes amigos durante este tempo e, por aproximadamente seis meses, também amantes no final deste período. Mas, não é a minha relação amorosa com ele que gostaria de registrar. Apesar de certinha e funcional, a paixão não estava envolvida. Os fatos que me marcaram sobre o David são de outra natureza.
Se com o Andy (sobre quem falei no ultimo post) e sua juventude experimentei o prazer da irresponsabilidade, da loucura, e de certo modo da ingenuidade inerente ao ser jovem, com David experimentei o prazer e vantagens do simples, da utilização apenas do estritamente necessário, e da tomada de responsabilidade por si próprio. Certamente, com ele aprendi também as delicias e dores da adoção da no-bullshit ideologia. Ao contrário de Andy, uma década mais jovem que eu, David era justamente o oposto, quase duas décadas mais velho. Alias, era o mais velho da turma. Mais velho, mais maduro, mais verdadeiro, mais transparente, e, apesar ou por causa disso, a mais “econômica” de todas as pessoas que conheci.
Ex-hippie, desertor da guerra do Vietnam (fugiu da convocação do governo americano e foi para o Canadá onde viveu por muitos anos até que aos desertores, o governo americano concedeu anistia) e não tinha vergonha de falar sobre isso. Fugiu dos EUA não por covardia, mas por fielmente acreditar que não iria participar em algo que abominava. Daquela época ainda mantinha um amigo veterano da guerra (na epoca, medico) que ficou louco com a experiência da guerra. Falávamos dele e o visitavamos com freqüência.
Extremante magro, cabelos louros a altura dos ombros, olhos de um transparente azul, David é um cara raro de se encontrar. Vivia com quase nada e de mais nada parecia precisar. No entanto, parecia uma pessoa absolutamente tranqüila e em paz consigo mesma.
Outra coisa importante sobre David, é que, pelo seu próprio exemplo, e não tentando convencer a mim ou a ninguém do que deve ser feito, me mostrou que é possível viver sem a maioria das coisas que usualmente consideramos tão indispensáveis. Como já disse antes, se existe uma palavra que melhor o descreva, esta palavra é “econômico”, no sentido estrito da palavra.
Portador de hábitos simples é por isso mesmo fáceis de lembrar. Era uma pessoa totalmente desprovida de enfeites literal e figurativamente. Nunca se pavoneava. Gostava disso. Com ele voce nunca tinha duvida sobre o que pensava. Simples ao extermo, parecia possuir apenas duas mudas de roupas (dois pares de calcas de veludo cotële marrons), duas camisas de manga comprida de listinhas feitas de algodão barato, algumas T-shirts brancas que sempre usava por debaixo da camisa, e um sapato de couro velho. No inverno, usava sobre a camisa um sweeter de algodão sintético cinza azulado e tinha um destes pesados Parkas que usava nas ruas. Era só. Ah! Lembrei-me. Tinha um paletó azul marinho comprado num brechó pra usar nas ocasiões muito especiais (casamentos, enterros e visitas a Washington). Gravatas! abominava, nunca o convenci a usar uma!.
Não era apenas no vestir que o David era simples e direto. Simplesmente nada acumulava a exceção de livros comparados em sebos, que conhecia quase todos na cidade em que viviamos(Boston). Tivemos ótimos domingos explorando-os e comendo hamburgers em diners baratos de beira de estrada. Vivia em um apartamento simples com apenas dois cômodos... Um que fazia às vezes de quarto, sala e cozinha e o segundo, o banheiro. Não possuía moveis, com exceção do indispensável como um colchão (que colocava no chão), fogão e geladeira de segunda mão, estantes feitas de caixas recolhidas nas calcadas e de uma mesinha onde fazia tudo – refeições, leitura, trabalho. O único luxo que presenciei era um pequeno radio que permanecia todo o tempo ligado numa estação chamada Oldies 103, que só tocava rock dos anos 60 e 70. Alias, David só e exclusivamente escutava rock e blues e não estava nem ai pra quem o achava que o achava pouco ecletico. Nao gostava de jazz , folk, e qualquer outro genero musical. Tampouco se importava nem perguntava a opinião alheia sobre coisas que só lhe diziam respeito. Detalhe importante – mesmo quando se formou e começou a lecionar em uma universidadeamericana de renome com um salário decente, seu estilo de vida não mudou. A única concessão que fez foi comprar uma nova muda de roupas!
Achava incrível como ele podia viver de uma maneira tão ... espartana. Só para exemplificar, bebia apenas uísque irlandês (e não escocês como a maioria) e chá. Comida, o absolutamente básico e fácil de fazer – ou seja, hambúrguer, e quando estava muito “inspirado” cozinhava pra nós dois um prato típico (adobe de frango) que aprendeu durante a época que morou nas Filipinas levantando dados para a sua tese de doutorado, e que apesar de delicioso, sempre achei que ele colocava muito vinagre! (nunca comentei, confesso, ele fazia com tanto gosto que nunca permiti criticá-lo).
Aprendi muito com ele, e é responsável por dois fatos que marcaram a minha forma de me ver. Primeiro, apresentou-me a um livro, diria que o não o melhor, mais o mais importante livro que já li - The Outsider - livro de Collin Wilson, sucesso único de um autor britânico que só conseguiu produzir uma única obra reconhecida pelo publico em geral. Neste livro, nunca traduzido para o português, é explorado, os caminhos e descaminhos do “ser diferente”, utilizando-se da analise de obras de arte, obras literárias e biografias de autores conhecidos.
A época em que me deu este livro, eu estava atravessando um período difícil, pois estava passando por uma grave crise no casamento (e para isso freqüentando duas sessões de terapia semanal – 1 para a terapia de casal, e a outra para terapia individual), e, ao mesmo tempo tentando escrever uma tese de doutoramento. Missão quase impossível, eu diria!
Costumávamos conversar bastante sobre assuntos vários, mas um dia ao comentar sobre estes aspectos pessoais, ele me olhou fixamente por alguns segundos e disse - “Vera... “it is amazing what we do with our own lives…” (até hoje penso nesta frase). Foi neste momento que li o livro, larguei as terapias, e pedi a separação, nesta ordem. Muita água correu por debaixo desta ponte, é verdade, mas isso já é outro assunto... O certo é que hoje, divorciada e sem terapia, quando tento culpar o tal do “destino” por aspectos desagradáveis da minha vida, freqüentemente lembro-me daquela frase e reflito...
Poderia continuar a falar sobre o David por um longo tempo ainda, se não fosse o sono que chega agora. Em sua homenagem tentarei ser econômica e resumir o que aprendi com ele, ou seja – 1) seja direta, 2) seja simples, 3) seja você. O resto, é apenas bullshit. 
Ainda penso em continuar este relato, com outros aspectos que gostava sobre ele ( e que odiava também, como por exemplo seu excesso de disciplina). Quem sabe, traduziria e mandaria por e-mail. Acho que ele ia gostar de ver como o vejo e de reatar a nossa amizade...Quem sabe faço isso um dia...Mas, é tanta coisa que penso e que ainda gostaria de escrever sobre que acho difícil que ainda encontre tempo para isso.... vamos ver.....ou quem sabe, eu deveria parar com este meu bullshit e mandar um email apenas dizendo “olá”......

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