Confesso, tenho uma alma atormentada, e em caminhos tortuosos sempre me encontro, por mais que nunca saia de casa, ando sem mascara, de cara lavada.
Cavo, cavo, cavo, nunca encontro nada, tenho as unhas cheias de barro, abismo é meu mundo, tenho as mãos ensangüentadas, tento segurar-me, caio sempre mais fundo.
Quantas vezes terei que tentar, acreditar, me enganar, neste jogo de cartas marcadas, não adianta jogar, não nada a ganhar, apenas, e tão somente apenas, amar.
Quantas vezes terei que descobrir que não há caminho, persigo um pote de ouro no final do arco-íris, não são pra mim os sussurros que ouço, são pra mim o escrito insosso.
Sangue de verdade que me corre nas veias, verdade verdadeira, mentira lavada, deslavada, verdade que dói, que corroí, envenena-me a alma, que me lança ao abismo, de novo...
Quanta vezes terei que cair, emudecer, engolir em seco, os gemidos de prazer que escuto ao amanhecer, e em meio aos meus digo e desdigos, meus mintos e não mintos, confesso, sinto mais do que digo.
Admito, não sou feita de luz, sou treva, sou rosa pisada no asfalto, não sou santa, apenas insana e infinitamente e perfeitamente humana.
Que amados sejam os iluminados, os dignos de amores, em dedos entrelaçados, são estes os abençoados, por eles todo o meu reinado.
Sobram para mim, os horrores, as dores, o jogo interminável, escritos em falsa tinta, apenas, água, evapora ao subir dos calores.
E no fim, continuo aqui, a viver metade de um destino, sobrevivendo com meio coração, de amores hoje não fala a minha canção, tiraram – me a respiração, e outra vez, me acabo e desago, num oceano de dores.
Sei que é minha, só minha, esta pequena tragédia, e tragédias pessoais, eu sei, ninguém se importa, no fundo, todos as temos, o que importa é jogar, jogar sempre, amar e desamar, magoar e acariciar, cair, levantar, tropeçar, mas, nunca, nunca mesmo, parar de caminhar, afinal, o que importa é jogar...
"Algumas pessoas nunca enlouquecem... Que vida horrível elas devem levar..." (Bukowski).
Fotografia de Laureen Treece
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