terça-feira, 22 de setembro de 2009

O que é "ser" - divagações de uma noite insone


“Sou...”, apressamos-nos a dizer quando nos perguntam “quem és?”. Esforçamo-nos para parecer sempre muito firmes ao afirmar aquilo que somos. Freqüentemente, começamos a nos descrever com as palavras “sou investigadora, sou professora, sou ambientalista, etc.”, quando na verdade estamos apenas falando o que fazemos pra viver – e isso, vamos combinar, não é Ser.

Outras vezes, respondemos à pergunta dizendo, “bem, meu nome é Verônica, sou brasileira, natural de Salvador da Bahia, nascida no ano tal, filha de...”. Ok, tudo bem, não estamos necessariante errados, mas, vejam bem, isso não passa de detalhes de nossa naturalidade e registro civil – apenas uma formalidade exigida pelo Estado, mas, isto também não é Ser.

Dependendo da situação e do contexto, começamos a descrever quem somos dizendo “bem, eu sou uma pessoa leal, calada, introvertida, bem humorada, etc." , quando o que de fato estamos descrevendo é a nossa personalidade, ou estados mais ou menos transitorios - na verdade, melhor expressao seria "estamos", o que, de novo, vamos admitir, compartilhamos com milhões de outras pessoas... E, de novo, convenhamos, forma e estados  de ser, também não é de fato Ser...

Às vezes nos descrevemos como “sou apreciador de arte e boa musica, gosto do gênero tal particularmente blues, pratico jogging, e só como comida natural, adoro peixe e frutos do mar, pastas - adoro! -  carne vermelha - nem pensar!”. Um momento, vamos de novo refletir e admitir que isso também não é Ser – apenas é o que gostamos de fazer...

Na verdade, penso que tudo que respondemos não passam de qualidades, de adjetivos qualificativos do Ser.Sendo o Ser necessariamente um substantivo,
não há muito sentido em atribuir qualidades a algo sem substantivo, sem substancia. Necessário que antes de qualificar o "que" precisamos saber de "que" se trata.

E afinal, somos o que? Bom, difícil, se não impossível, dizer... Há tanta formas de ser... Primeiro, há o Ser que conscientemente mas superficialmente achamos que somos, havendo também aquele Ser que no fundo, no fundo (e nem a nós mesmos confessamos) , intuimos que somos, e até, porque não dizer, aquele Ser que de fato gostaríamos de ser. 

Há o Ser que queremos que os outros pensem que somos, assim como o Ser que fingimos ser, seja para nós mesmos, seja para os outros. Finalmente, há também o Ser como os outros nos vê, um Ser que pode ser tudo, mas muito diferente do que a gente se vê.

O que somos nós? Impossível dizer. No fundo somos apenas um Ser sem saber, impossível descrever. E é divagando sobre ser ou não ser, que tem tanta importância como descobrir o sexo dos anjos, que consigo atravessar a salvo mais esta noite insone. Conclusões , não tenho nenhuma, evidentemente. Se nos dois milênios passados, os filósofos não conseguiram responder a esta pergunta, não serei eu capaz de fazê-lo.

Nao tenho conclusoes mas tenho desconfianças. Desconfianças que, para começar a ser o que dizemos Ser de verdade, precisamos primeiramente começar a deixar de ser o que somos. Desconfio também, que é no fazer desse ser, nas suas ações e contradições, e principalmente, eu acredito, nas suas contradições, que conseguimos vislumbrar um pouco do que seja este nosso Ser. Alem disso, não existe nenhuma descrição possível. Tudo o mais são apenas olhares, olhares de mim sobre mim, olhares de você sobre você, olhares de mim sobre você, olhares de você para mim... Apenas olhares, só isso...
Olhares de seres que não sabem o que é Ser...


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