domingo, 6 de dezembro de 2009

Versos e reversos



Verso e reverso, cara e coroa,

Trago em mim, tudo que se sente,

Errado ou certo, sadio ou doente.


Sol do meio-dia e eclipse, o fosco, o brilhante,

Trago me mim, a lama e o diamante,

Se é parte da vida, em mim parte se esconde.


Dentro de mim, a vida e a morte,

Sonhos do suicida, a ira do homicida,

A luta e o desprezo pela vida,

Teresa de Calcutá, kamikase, Hitler, Ghandi.


No meu peito encravados, trago facas, esporões,

Gritos, sussurros, palavrões, de amor declarações,

Digo e desdigo, presenteio-me, imponho-me castigos,

Sussurro ou berro, belo ou cruel, é assim que sinto.


Troco segredos com os mendigos, drogados, ladrões,

Nas esquinas enlameadas das ruas, nos escuros vãos,

Ando de mãos dadas com anjos e querubins,

Em idílicas alamedas perfumadas de jasmins.


Tenho Romeus e Julietas, Otelos e Desdemonas

Matando, morrendo, enlutados, enciumados,

Vivendo em mim abraçados, desesperados,

Todos eles, lutando por um espaço.


Santa e a louca, a parva e a douta

Fel e mel moram na mesma boca

E se por amor brotam gritos umedecidos

Por desamor, ensandecidos tornam-me rouca .


Dentro de mim, fieis esposas, ninfetas virgens,

Carentes adulteras, freiras em cio, meretrizes,

Em quartos emsombreados, luzes avermelhadas,

Banham-me a pele,

Espalhando-se de abajures baratos.


E se por amor, tornei-me louca,

E se nestas palavras, outras tantas, também loucas

Acusem-me e condenem-me, sem julgamento

Mas como eu, nunca outra.


Embriago-me nestas letras de absinto,

É porque, só aqui encontro asilo,

E nas manhas de ressacas do exílio,

Águas salobras engulo para alivio.


Não sabem, mas sou a face oculta da lua,

Quando amo, nua

Explodo centelhas de mil cores que fulguram


Mas, versos e reversos que aqui aninho

Aviso - é preciso coragem pra desvendar

Pois que toda rosa purpura

Tem também seus espinhos.



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