Inevitável é a palavra ácida que escapa-me as vezes. Reajo a um mundo que desenho com as que vejo, que não me pertencem, e que tampouco compreendo (ou talvez sim, sendo esta toda a razão do tormento). Em meio ao surrealismo de tudo, algo precisa ser meu, parte real do meu mundo, pois que preciso de fato existir, ainda que neste universo de Dali. Este algo, são as letras que rabisco, e às vezes, até parecem que as vomito, tal a força que impelem-nas a sair. E saem... saem num ato de patética valentia, a desnudar minhas fraquezas tão óbvias, como se iluminadas por um sol de meio dia. Pois que não há no mundo quem tenha dentro de si apenas melodia, se alguém disse o contrário, é certo que mentia. Que sejam então as palavras que saem de mim reais, muito mais que fantasias, como as que sonho antes de dormir. Que sejam como a vida: vezes doces, vezes amargas, ásperas ou suaves, como a luz que nem sempre ilumina nossos dias. Sim, confesso: inevitável é a palavra ácida que escapa-me as vezes. Mas sou mais que isso. Sou muito mais, infinitamente mais. Mais do que só palavras ácidas e frias, também as mornas e suaves, com “a dolência de veludos caros”, tenho-as dentro de mim, e embora nem sempre as escreva , vivo-as sempre, noite e dia, a mais de mil dias.
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