domingo, 25 de setembro de 2011

Sem lírios, sem miragens...


Estes gestos de vento,

estas palavras duras como a noite,

estes silêncios falsos,

estes olhares de raiva a apertarem as mãos,

estas sombras de ódio a morderem os lábios,

estes corpos marcados pelas unhas!


Esta ternura inventando desejos na distância,

esta lembrança a projectar caminhos,

este cansaço a retratar as horas!...


Amamo-nos. Sem lírios

sobre os braços,

sem riachos na voz,

sem miragens nos olhos.


Amamo-nos no arame farpado,

no fumo dos cigarros,

na luz dos candeeiros públicos.


O nosso amor anda pela rua

misturado ao buzinar dos carros,

ao relento e à chuva.


O nosso amor é que brilha na noite

quando as estrelas morrem no céu dos aviões.



[António Rebordão Navarro, In: A Condição Reflexa, Poemas (1952 - 1982)]

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