Ela chega assim sem avisar, nem mesmo pede licença e já entra no meu quarto. Não consigo impedir que ela entre. Vizinha de longo tempo sente-se íntima, de casa, quase da família. Surpreende-me nua debaixo dos lençóis, cabelos desalinhados – acabo de acordar. Segue-me em todos os aposentos, pedindo minha atenção incessantemente. São seis da manha – não há em mim, um único neurônio que pense – acordar de fato, é um processo lento - tenho estado tão cansada ultimamente, noites cheias de sonhos, dias cheios de nadas. Faço café, sento-me no sofá, de frente para a porta de vidro olhando para a varanda. Gosto de pensar, olhando o Ingá que se debruça sobre ela.
(Engraçada a vida da gente,
depois de tantos anos neste lugar,
nunca quis uma casa minha – como se estivesse
sempre de partida (e estou...).
Mas terminei comprando este apartamento
só por causa de uma arvore – um ingá.
Seus galhos invadem a varanda e o meu quarto.
É com ela que converso, quando me sinto sozinha.
Faz-me companhia e em geral, sua calma, resiliencia e permanência,
me animam para um novo dia.
Quando eu for embora daqui, vou sentir saudades).
.
Sentada a meu lado, a vizinha Melancolia continua a seguir-me a desfiar seus velhos lamentos... Mas eu, respondo com alguns oks distraídos. Desta vez, tenho firme a intenção de não lhe dar ouvidos. Tento ignorá-la e começo a pensar, são os neurônios que começam a despertar.
Penso e repenso nas coisas que (penso que) entendo e das que (penso que) não entendo também, que são muitas - estas ultimas, a maioria. Faço-me perguntas, recrimino-me, concordo comigo, me desdigo, enfim, vou e volto em círculos. O Ingá como bom amigo que é sabe que o mais importante é escutar, fita-me em silencio por um longo tempo. De em vez quando, balança seus galhos como se concordando e me estimulando a continuar. Quando responde, tem para mim apenas perguntas – as de sempre. Digo pra ele que assim não ajuda muito, preciso de alguém que me esclareça e não que me confunda. É ai então que timidamente oferece-me uma resposta: "segue tua intuição, pois que nunca falha.. "Ah não! Isto não é reposta, se eu confiasse na minha intuição, não precisaria estar aqui a conversar contigo", respondo.
Bom, acho que hoje, não chego a nenhuma conclusão, obviamente. Mais tarde, reuniões e relatórios me esperam (tudo tão inútil!), tenho mesmo que sair. Arrasto-me até o banheiro, vai ser fácil, hoje não sinto vontade de me enfeitar não sinto a minha alma carmim, tem tons cinzentos, daqueles que se vestem o mar, o mesmo tom que seu espelho, o céu, quando fixa-o calado, como se o analisar.
Antes do banho, olho de relance pro quarto. Nas paredes uma grande fotografia – na verdade, um puzzle que montei há anos atrás, mas que até hoje ainda não decifrei. Na bagunça, os restos da noite – copo com água, CD´s fora das capas, e o abajur lilás, testemunha muda das minhas viagens noturnas, agora apagado, calado. A lingerie jaz abandonada no chão.
Com os restos da noite ainda na retina olho-me espelho e é aí que finalmente compreendo o que a vizinha tenta me dizer alem dos velhos lamentos. Escuto em sua voz agora, um outro sentimento. O de hoje tem uma pungencia, uma verdade que dá-me pena. Uma mescla de vergonha do meu despropositado otimismo. Vergonha de que? Talvez da minha eterna inocência. Á luz do dia aparecem mais os meus defeitos. Meu corpo perfeito já não é mais, no meu rosto, os enfeites são as rugas – não, nas as renego- são como páginas de vida, capítulos, muitos deles findos, outros, faltando a conclusão, e outros, ainda por escrevê-los. Não sei ainda quantos restam antes que o livro acabe. Mas isto não é prerrogativa minha, na verdade, ninguém sabe.
Não, não renego as minhas rugas, estão apenas na epiderme – lá dentro, na derme, em alguns aspectos sou a mesma de sempre, talvez por demais ingênua, em outros mais jovem do que antes, em outros nem consegui ainda desenvolver uma pele, e em certos recantos mais velha que Matusalém. Tenho tudo lá dentro, a inocência das crianças, o fogo dos adolescentes, e dos velhos, a desesperança. Mas é na hipoderme que de fato me define, pois é onde moram as minhas certezas e incertezas, as minhas constâncias e inconstâncias. Mas esta camada mais profunda, a hipoderme, infelizmente ninguém vê, talvez nem mesmo eu.
Não, repito, não renego as minhas rugas, renego sim, é o Senhor Tempo, este deus cruel, que me rouba o que mais preciso agora, enxurradas dele próprio. Mesquinho, reserva-me apenas algumas gotas de si mesmo, que deslizam entre meus dedos com a fluidez de mercúrio. E penso então em tudo que não fiz e que talvez nunca faça, de tudo que quis e não tive, do amor que amei e não vivi. O que farei de tudo isso, e os meus sonhos para onde vão?
Hoje, sei que não vou conseguir trabalhar produtivamente. Mais uma vez, agirei como um automato, fazendo apenas o que não exija muita energia ou intelecto. Com esta vizinha a me acompanhar, a lembrar-me de tudo que não fui e nunca serei, será difícil achar relevância, razão. Tudo que consigo fazer é perguntar-me se continuar a viver desenhando entre as folhas, perderei o que resta do tempo. Enquanto isso, a vida lá fora, corre célere como manda o senhor Tempo, enquanto dentro de mim, alternam-se o fogo da adolescente, amanha o cansaço, depois um despertar com a esperança de uma criança inocente.
De volta do emprego e de um dia completamente improdutivo, atravesso a cidade: engarrafamento, luzes piscando, gente por toda parte, vitrines natalinas, o velho nonsense de sempre. Nada disso me pertence. Ainda por cima, chove. Daquelas chuvinhas finas e insistentes, que amolecem a alma da gente. Trafego engarrafado, lento, muito lento, quase não consigo me conter, preciso chegar em casa, para que? Lá ninguém me espera, só o Ingá fiel, como sempre, à minha espera. Em casa esta noite, não arderei com fogo de uma adolescente, mas com a calma intensa daqueles que já tendo vivido tudo, sabem que o nada é o que ainda resta, ou no máximo, as mesmas coisas de sempre (assim sopra-me ao ouvido, a vizinha).
Hoje, não tenho inocência das crianças, nem o fogo dos adolescentes. Hoje, resta-me como aos velhos, uma irremediável desesperança. É que tive a visita da incomoda vizinha Melancolia...
(21 de dezembro de 2011, primeiros minutos...)
(21 de dezembro de 2011, primeiros minutos...)
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