quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia dificil


Hoje,
Não são as mãos que me impelem a escrever. É algo diferente, que não consigo descrever. E apesar saber-me errada, faço mesmo assim, como não importasse o fazer ou não fazer.

Hoje,
A folha branca me fita particularmente hostil. Já não espera a  definitiva Palavra. Já não se abre como mulher apaixonada, à espera da  Semente, por tão  longo, esperada.

Hoje,
Ela apenas me olha, num misto de decepcionada e desafiante,  como se a dizer “se não trazes-me o que preciso, porque sujas-me, com seus rabiscos, porque maculas-me, com seus gritos?”

Hoje,
Foi um dia particularmente difícil. Pudesse eu partir, partiria. Para onde? Não saberia. Ou quem sabe talvez, saberia, mas dizer não ouso. Tudo me parece tão inóspito, como se, a despeito de aonde eu chegasse, ainda assim, hostil seria o porto.

Hoje,
Terei uma noite  particularmente difícil. Pudesse alguma coisa fazer, faria. O que?  Não saberia. Ou quem sabe, saberia, mas dizer  não ouso. Tudo me parece tão estéril, como se, a despeito do que eu  plantasse, ainda assim, nada vingaria neste deserto.

Hoje,
Não tenho nada a dizer à folha alva. Uso-a apenas como muletas, a amparar-me  nos meus passos. Hoje, queria o oposto. Gostava sim que ela me mostrasse a saída, a redenção para minha agonia, o caminho, o porto, a luz no fim do tunel, que me dissesse aonde eu iria, o que eu faria.

Mas ela,  a folha alva,  cruel e silenciosa, talvez a punir-me pelos meus rabiscos,  a macular sua alvura antes de mim, imaculada, nada me diz, apenas me olha, calada...




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