Hoje,
Não são as mãos que me impelem a escrever. É algo
diferente, que não consigo descrever. E apesar saber-me errada, faço mesmo
assim, como não importasse o fazer ou não fazer.
Hoje,
A folha branca me fita particularmente hostil. Já
não espera a definitiva Palavra. Já não
se abre como mulher apaixonada, à espera da Semente, por tão longo, esperada.
Hoje,
Ela apenas me olha, num misto de decepcionada e desafiante,
como se a dizer “se não trazes-me o que
preciso, porque sujas-me, com seus rabiscos, porque maculas-me, com seus
gritos?”
Hoje,
Foi um dia particularmente difícil. Pudesse eu
partir, partiria. Para onde? Não saberia. Ou quem sabe talvez, saberia, mas dizer não ouso. Tudo me parece tão inóspito, como se, a despeito de aonde eu chegasse, ainda assim, hostil
seria o porto.
Hoje,
Terei uma noite particularmente difícil. Pudesse alguma coisa
fazer, faria. O que? Não saberia. Ou
quem sabe, saberia, mas dizer não ouso. Tudo me parece tão estéril, como se, a despeito do que eu plantasse, ainda assim, nada vingaria neste deserto.
Hoje,
Não tenho nada a dizer à folha alva. Uso-a apenas como
muletas, a amparar-me nos meus passos. Hoje, queria o oposto. Gostava sim que ela me mostrasse a saída, a redenção para minha
agonia, o caminho, o porto, a luz no fim do tunel, que me dissesse aonde eu iria, o que eu faria.
Mas ela, a folha alva, cruel
e silenciosa, talvez a punir-me pelos meus rabiscos, a macular sua alvura antes de mim, imaculada, nada me diz, apenas me olha, calada...
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