“Em redor, o
vasto campo. Mergulhado em névoa branda, o verde era pálido e opaco. Contra o
céu, erguiam-se os negros penhascos tão retos que pareciam recortados a faca.
Espetado na ponta da pedra mais alta, o sol espiava através de uma nuvem. "Onde,
meu Deus?! - perguntava a mim mesma - Onde vi esta mesma paisagem, numa tarde
assim igual?"
Era a primeira
vez que eu pisava naquele lugar. Nas minhas andanças pelas redondezas, jamais
fora além do vale. Mas nesse dia, sem nenhum cansaço, transpus a colina e
cheguei ao campo. Que calma! E que desolação. Tudo aquilo - disso estava bem
certa - era completamente inédito para mim. Mas por que então o quadro se
identificava, em todas as minúcias, a uma imagem semelhante lá nas profundezas
de minha memória? Voltei-me para o bosque que se estendia à minha direita. Esse
bosque eu também já conhecera com sua folhagem cor de brasa dentro de uma névoa
dourada. “Já vi tudo isto, já vi... Mas onde? E quando?”
Fui andando em
direção aos penhascos. Atravessei o campo. E cheguei à boca do abismo cavado
entre as pedras. Um vapor denso subia, como um hálito daquela garganta de cujo
fundo insondável, vinha um remotíssimo som de água corrente. Àquele som eu
também conhecia. Fechei os olhos. “Mas se nunca estive aqui! Sonhei, foi isso?
Percorri em sonho estes lugares e agora os encontro, palpáveis, reais? Por uma
dessas extraordinárias coincidências teria eu antecipado aquele passeio
enquanto dormia?”
Sacudi a cabeça,
não, a lembrança - tão antiga quanto viva - escapava da inconsistência de um
simples sonho.
Ainda uma vez
fixei o olhar no campo enevoado, nos penhascos enxutos. A tarde estava
silenciosa e quieta. Contudo, por detrás daquele silêncio, no fundo daquela
quietude eu sentia qualquer coisa de sinistro. Voltei-me para o sol que
sangrava como um olho empapando de vermelho a nuvenzinha que o cobria.
Invadiu-me a obscura sensação de estar próxima de um perigo. Mas que perigo era
esse e em que consistia?
Dirigi-me ao
bosque. E se fugisse? Seria fácil fugir, não? Meu coração se apertou, inquieto.
Fácil, sem dúvida, mas eu prosseguia implacável como se não restasse mesmo
outra coisa a fazer senão avançar. “Vá-se embora depressa, depressa!” - a razão
ordenava enquanto uma parte do meu ser, mergulhada numa espécie de encantamento,
se recusava a voltar.
Uma luz dourada
filtrava-se por entre a folhagem do bosque que parecia petrificado. Não havia a
menor brisa soprando por entre as folhas enrijecidas, numa tensão de
expectativa.
“A expectativa
está só em mim” - pensei, triturando entre os dedos uma folha avermelhada.
Veio-me então a certeza absoluta de já ter feito várias vezes esse gesto
enquanto pisava naquele mesmo chão que arfava sob os meus sapatos. Enveredei
por entre as árvores. - “E nunca estive aqui, nunca estive aqui” - fui
repetindo a aspirar o cheiro frio da terra. Encostei-me a um tronco e por entre
uma nesga da folhagem vislumbrei o céu pálido. Era como se o visse pela última
vez.
“A cilada” -
pensei diante de uma teia que brilhava suspensa entre dois galhos. No centro, a
aranha. Aproximei-me: era uma aranha ruiva e atenta, à espera. Sacudi
violentamente o galho e desfiz a teia que pendeu em farrapos. Olhei em redor,
assombrada. E a teia para a qual eu caminhava, quem? quem iria desfazê-la?
Lembrei-me do sol, lúcido como a aranha. Então enfurnei as mãos nos bolsos,
endureci os maxilares e segui pela vereda.
“Agora vou
encontrar uma pedra fendida ao meio.” E cheguei a rir, entretida com aquele
estranho jogo de reconhecimento: lá estava a grande pedra golpeada, com tufos
de erva brotando na raiz da fenda. “Se for agora por este lado, vou encontrar
um regato.” Apressei-me. O regato estava seco, mas os pedregulhos limosos
indicavam que provavelmente na próxima primavera a água voltaria a correr por
ali.
Apanhei um
pedregulho. Não, não estava sonhando. Nem podia ter sonhado, mas em que sonho
podia caber uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu
estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo sonho de alguém, mais real do que se
estivesse vivendo. Por que não? Daí o fato estranhíssimo de reconhecer todos os
segredos do bosque, segredos que eram apenas do conhecimento da pessoa que me
captara em seu sonho. “Faço parte de um sonho alheio” - disse e espetei um
espinho no dedo. Gracejava mas a verdade é que crescia minha inquietação: “se
for prisioneira de um sonho, agora escapo.” Uma gota de sangue escorreu pela
minha mão, a dor tão real quanto a paisagem.
Um pássaro
cruzou meu caminho num vôo tumultuado. O grito que soltou foi tão dolorido que
cheguei a vacilar num desfalecimento, e se fugisse? E se fugisse? Voltei-me
para o caminho percorrido, labirinto sem - esperança. “Agora é tarde!” -
murmurei e minha voz avivou em mim um último impulso de fuga. “Por que tarde?”
A folha que
resvalou pela minha cabeça era a seca advertência que colhi no ar e fechei na
mão, que eu não buscasse esclarecer o mistério, que não pedisse explicações
para o absurdo daquela tarde tão inocente na sua aparência. Tinha apenas que
aceitar o inexplicável até que o nó se desatasse, na hora exata.
Enveredei por
entre dois carvalhos. Ia de cabeça baixa, o coração pesado mas as passadas eram
enérgicas, impelida por uma energia que não sabia de onde vinha. “Agora vou
encontrar uma fonte. Sentada ao lado, está uma moça.”
Ao lado da
fonte, estava a moça vestida com um estranho traje de amazona. Tinha no rosto
muito branco uma expressão tão ansiosa que era evidente estar à espera de
alguém. Ao ouvir meus passos, animou-se para cair em seguida no maior
desalento.
Aproximei-me.
Ela lançou-me um olhar desinteressado e cruzou as mãos no, regaço.
- Pensei que
fosse outra pessoa, estou esperando uma pessoa...
Sentei-me numa
pedra verde de musgo, olhando em silêncio seu traje completamente antiquado:
vestia uma jaqueta de veludo preto e uma extravagante saia rodada que lhe
chegava até a ponta das botinhas de amarrar. Emergindo da gola alta da jaqueta
destacava-se a gravata de renda branca, presa com um broche de ouro em forma de
bandolim. Atirado no chão, aos seus pés, o chapéu de veludo com uma pluma vermelha.
Fixei-me naquela
fisionomia devastada. “Já vi esta moça, mas onde foi? E quando?...” Dirigi-me a
ela sem o menor constrangimento, como se a conhecesse há muitos anos.
- Você mora aqui
perto?
- Em Valburgo -
respondeu sem levantar a cabeça.
Mergulhara tão
profundamente nos próprios pensamentos, que parecia desligada de tudo,
aceitando minha presença sem nenhuma surpresa, não notando sequer o disparatado
contraste de nossas roupas. Devia ter chorado. E agora ali estava numa patética
exaustão, as mãos abandonadas no regaço, alguns anéis de cabelo caindo pelo
rosto. Nunca criatura alguma me pareceu tão desesperada, tão tranqüilamente
desesperada, se é que cabia tranqüilidade no desespero. Perdera toda a
esperança e decidira resignar-se. Mas sentia-se a fragilidade naquela
resignação.
- Valburgo,
Valburgo... - fiquei repetindo. O nome não me era desconhecido. E não me
lembrava de nenhum lugar com esse nome em toda aquela região.
- Fica logo
depois do vale. Não conhece Valburgo?
- Conheço -
respondi prontamente. Tinha agora a certeza de que esse lugar não existia mais.
Com um gesto
indiferente, ela tentou prender o cabelo que desabava do penteado alto.
Afrouxou ansiosamente o laço da gravata, como se lhe faltasse o ar. O bandolim
de ouro pendeu, repuxando a renda. “Esse broche... Mas já não vi esse mesmo
broche nessa mesma gravata?!”
- Eu esperava
uma pessoa - disse com esforço, voltando o olhar dolorido para o cavalo preso a
um tronco.
- Gustavo?
Esse nome
escapou-me com tamanha espontaneidade que me assustei, era como se estivesse
sempre em minha boca, aguardando aquele instante para ser dito.
- Gustavo -
repetiu ela e sua voz era um eco. Gustavo.
Encarei-a. Mas
por que ele não tinha vindo? “E nem virá, nunca mais. Nunca mais.”
Fixei
obstinadamente o olhar naquela desconcertante personagem de um antiquíssimo
álbum de retratos. Álbum que eu já folheara muitas vezes, muitas. Pressentia
agora um drama com cenas entremeadas de discussões tão violentas, lágrimas. A
cena esboçou-se esfumadamente nas minhas raízes, cena que culminou naquela
noite das vozes. Exasperadas. De homens. De inimigos. Alguém fechou as janelas
da pequena sala frouxamente iluminada por um candelabro. Procurei distinguir o
que diziam quando através da vidraça embaçada vi delinear-se a figura de um velho
magro, de sobrecasaca preta, batendo furiosamente a mão espalmada na mesa
enquanto parecia dirigir-se a uma máscara de cera que flutuava na penumbra.
Moveu-se a
máscara entrando na zona de luz. Gustavo! Era Gustavo. A mão do velho continuou
batendo na mesa e eu não podia me despregar dessa mão tão familiar com suas
veias azuis se enroscando umas nas outras numa rede de fúria. Nos punhos de
renda de sua camisa destacavam-se com uma nitidez atroz os rubis de suas
abotoaduras. Um dos homens avançou. Foi Gustavo? Ou o velho? A garrucha avançou
também e a cena explodiu em meio de um clarão. Antes do negrume total vi por
último as abotoaduras brilhando irregulares como gotas de sangue.
Senti o coração
confranger-se de espanto, “quem foi que atirou, quem foi?!” Apertei os nós dos
dedos contra os olhos. -Era quase insuportável a violência com que o sangue me
golpeava as fontes.
- Você devia
voltar para casa.
- Que casa? -
perguntou ela abrindo as mãos.
Olhei para suas
mãos. Subi o olhar até seu rosto e fiquei sem saber o que dizer: era
parecidíssima com alguém que eu conhecia tanto.
- Por que não
vai procurá-lo? - lembrei-me de perguntar. Mas não esperei resposta. A verdade
é que ela também suspeitava de que estava tudo acabado.
Escurecia. Uma
névoa roxa - e que eu não sabia se vinha do céu ou do chão - parecia envolvê-la
numa aura. Achei-a impregnada da mesma falsa calmaria da paisagem.
-Vou-me embora -
disse apanhando o chapéu.
Sua voz
chegou-me aos ouvidos bastante próxima. Mas singularmente longínqua. Levantei-me.
Nesse instante, soprou um vento gelado com tamanha força que me vi enrolada
numa verdadeira nuvem de folhas secas e poeira. A ramaria vergou num
descabelamento desatinado. Verguei também tapando a cara com as mãos. Quando
consegui abrir os olhos ela já estava montada. O mesmo vento que despertara o
bosque, com igual violência arrancou-a daquela apatia: palpitava em cima do
cavalo tão elétrico quanto as folhas vermelhas rodopiando em redor. Espicaçado,
o animal batia com os cascos nos pedregulhos, desgrenhado, indócil. Quis
retê-la..
- Há ainda uma
coisa!
Ela então
voltou-se para mim. A pluma vermelha de seu chapéu debatia-se como uma labareda
em meio da ventania. Seus olhos eram agora dois furos na face de um tom
acinzentado de pedra.
- Há ainda uma
coisa - repeti agarrando as rédeas do cavalo. Ela arrancou as rédeas das minhas
mãos e chicoteou o cavalo. Recuei. Aquela chicotada atingiu em cheio o
mistério. Desatou-se o nó na explosão da tempestade. Meus cabelos se eriçaram.
Era comigo que ela se parecia! Aquele rosto era o meu.
- Eu fui você -
balbuciei. - Num outro tempo eu fui você! - quis gritar e minha voz saiu
despedaçada. Tão simples tudo, por que só agora entendi?... O bosque, a aranha,
o bandolim de ouro pendendo da gravata, a pluma do chapéu, aquela pluma que
minhas mãos tantas vezes alisaram... E Gustavo? Estremeci. Gustavo! A saleta
esfumaçada, se fez nítida. Lembrei-me do que tinha acontecido. E do que ia
acontecer.
- Não! - gritei,
puxando de novo as rédeas. Um raio chicoteou o bosque com a mesma força com que
ela chicoteou o cavalo. Ele empinou, imenso, negro, os olhos saltados,
arrancando-se das minhas mãos. Estatelada, vi-o fugir por entre as árvores.
Fui atrás. O
vento me cegava. Espinhos me esfrangalhavam a roupa. Mas eu corria, corria
alucinadamente na tentativa de impedir o que já sabia inevitável. Guiava-me a
pluma vermelha que ora desaparecia, ora ressurgia por entre as árvores,
flamejante na escuridão. Por duas vezes senti o cavalo tão próximo que poderia
tocá-lo se estendesse a mão. Depois o galope foi se apagando até ficar apenas o
uivo do vento.
Assim que atingi
o campo, desabei de joelhos. Um relâmpago estourou e por um segundo, por um
brevíssimo segundo, consegui vislumbar ao longe a pluma debatendo-se ainda.
Então gritei, gritei com todas as forças que me restavam. E tapei os ouvidos
para não ouvir o eco de meu grito misturar-se ao ruído pedregoso de cavalo e
cavaleira se despencando no abismo.”
Lygia Fagundes Telles