De uma vida atrás de mãos que sabem que palavras são apenas isso – palavras – pequenos símbolos de fato incapazes de honestamente descrever o indescritível que é o vazio. Digo honestamente porque desonestamente as palavras podem tudo. As palavras são o que há de mais deceptivo neste mundo. E não o são por culpas delas, afinal, são também apenas símbolos, sujeito a interpretação de quem as lë.
Assim, estas mesmas mãos poderiam escrever facilmente milhares de palavras dando uma (falsa) aparência de conteúdo cheios de significado.
Porisso acho que para ser absolutamente consistente diria que apenas um vazio de palavras seria capaz de descrever o vazio. Mas a verdade é que não há significado atrás do vazio. No vazio há apenas um único significado. A falta deste.
Desde sempre soube disto, embora algum tempo atrás eu tenha tentado convencer-me do contrario ao esbarrar em outra vida que por alguma razão ainda incompreensível me fez por momentos enxergar uma luz no fim do túnel dando finalmente significado a toda escuridão que me rodeava. Na verdade, não havia luz. O clarão que vi foi apenas reflexo da luz que este ser irradiava. Tanta luz que cegava. No final uma ilusão de ótica. E mais uma vez, infelizmente eu estava irremediavelmente correta. Não há luz no fim do túnel.
Não há nenhuma alegria em descobrir que eu estava correta todo o tempo. Desde o primeiro segundo. Há apenas um imenso sentimento de desencanto por mim mesma, por eu mesma ter-me traído. Traí-me pela primeira vez na vida, (e repetidamente), ao ousar sonhar ser possível ter encontrado um Príncipe tirado das fabulas dos Irmãos Grimm, viver com ele no mundo do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry e esquecer que nasci num mundo governado pelo Príncipe de Maquiavel.
Um pequeno erro de julgamento, apenas isso, mas que faz toda a diferença. A diferença reside no fato de que antes eu não conhecia a luz. Hoje imagino como poderia ser. Ainda assim, sei que não mais a verei. Estando acostumada á falta de luz não me é difícil sobreviver. O difícil é conviver com a impossibilidade do que poderia ter sido possível apenas no mundo dos Irmãos Grimm.
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