segunda-feira, 13 de julho de 2009

Poesia de única direção

Nunca tive o direito de ter o beneficio da dúvida. Assim, as indubitáveis certezas se amontoam a cada dia que passa fazendo com que a poesia se esconda cada vez mais fundo dentro de mim, a cada vez que enxergo o aparentemente invisivel, os segredos, compartilhados no chão do oceano, que insistem em se mostrar pra mim mesmo que eu possua tão grossas vendas. Já dizem que "ignorance is a blessing", mas eu, talvez por não acreditar em Deus, com o dom da ignorancia não tenha sido por Ele abençoada.

Não queria, mas vejo. Vejo a prosa escondida dentro de cada poesia. Os chamados, os negados, os sims e os nãos, os começos, os fins, os recomeços que se repetem num tão obvio padrão. Reconheço a direção exata da palavra, aparentemente perdida entre o turbilhão de letras. Ou quando voam em pedaços, em mais de uma direção. Sei até quando não há nenhuma direção, quando são apenas lançadas ao vento, para que as colham qualquer uma das mãos. As especificidades por trás das supostas generalidades.

Infelizmente sei, não o queria saber, mas sei, ou melhor, sinto. Não escolhi ser assim, capaz de enxergar através de vendas. Não escolhi ser eterna testemunha de verdades inconvenientes. Inconvenientes para mim, e somente pra mim, pois não matam os sentimentos, apenas faz minha poesia sumir por trás da crua prosa. Verdade inconveniente que me fez muito cedo perceber que neste poço não há água suficiente pro tamanho da minha sede e sendo assim, não há sentido em cavá-lo ainda mais fundo.

Já disse o Miguel Torga “não queiras de nenhum fruto apenas a metade’ . Eu acrescentaria que particularmente quando o fruto é entre todos, aquele mais desejado, aquele para quem doastes toda a sua fome. Acho que é assim que me sinto. Não quero metades, não quero restos, não quero migalhas, não quero ser opção. Minha fome é do tamanho do mundo e não se aplaca com pouco, com gotas do impossivel. Na verdade, a expressão correta não é “não quero” e sim “não consigo querer”, pois até já tentei.

No final, sou apenas, apesar das aparências, a ultima grande romântica deste lado do Atlântico, mesmo que quase nunca eu fale de flores. Se sou prosa pelo lado de fora, tenham a certeza, sou só poesia dentro de mim. Esfomeada, desnutrida, combalida - mas poesia, sempre poesia, no seu estado mais puro... a que tem apenas uma única direção, a que sobrevive do nada, do que poderia ter sido..., mesmo sabendo que nunca teria sido possivel.

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