terça-feira, 1 de setembro de 2009

Toca-me o sangue


Toca-me o sangue. Peço-te que me toques o sangue. Escuta este rumor dentro do meu peito, esta palavra enlaçada a uma pedra que arde dentro da terra. Toca-me o sangue. Ordeno que me toques o sangue. Este rio que corre nos meus olhos, a música silenciosa que o mar vem entregar quando os homens regressam do crepúsculo. Vê como estou vivo. Vê como sabem a terra as minhas palavras. Vê como tenho ensangüentadas as minhas palavras perdidas, esses barcos que a tempestade teme e as aves anunciam. Amo-te. Toca-me o sangue. Sente que venho da noite, que é com angústia que chamo pelo teu nome, sonho os teus sonhos, espero as tuas mãos. Toca-me o sangue. Toca os fios de dor que me rasgam a boca. Toca o fogo dos meus cabelos.Toca-me o sangue, a escuridão em chamas do meu peito.

Sou o que espera na noite. Sou o que chora na sombra. Sou o que espera a tua passagem silenciosa, os teus quadris ardentes navegando na noite impassível. Espero-te. Espero-te. Um perfume ergue-se das tuas mãos, um punhal. Toca-me o sangue. Sou o que espera na solidão inquieta e toma a luz pela luz dos teus cabelos. Espero um rio, é uma praia que espero, o azul penetrante da tua tristeza secreta, esse bosque rugindo um nome e precipitando a fuga dos que temem e estão intranquilos. Toca-me o sangue. Toca o arco de fogo que cai das minhas mãos, as sílabas perdidas na terra por que uma criança cresce para o sono e toca a limpidez de uma lágrima. A vida vem com a brisa. Um astro aproxima-se do teu rosto. Uma canção desprende-se da árvore de espuma que a sombra engendra. Toca-me o sangue. O febril sangue do meu peito.

Amo-te, mulher desconhecida. Amo-te. Amo o jorro de luz da tua boca, as tuas cálidas palavras, a orla secreta dos teus lábios onde o mar vem beber. Amo o lume inesperado dos teus olhos, o teu corpo nervoso, as tuas mãos perdidas no vazio. Amo as caladas cintilações da tua boca, a pequena mancha de tule que dança nos teus olhos. Como a luminosidade descobre uma sandália na areia, o sinal recente de um beijo no contorno de um rosto, como um coração de pedra arde dentro da pedra e uma nuvem transfigura para sempre o horizonte, amo-te. Toca-me o sangue porque te amo. Toca-me o sangue porque trago comigo uma palavra sagrada. Porque estou inocente. Porque te amo. E uma ponta de luz entrega a claridade invisível dos teus dedos. Um rumor de água ou de lume vem das tuas mãos. Pulsa nas veias da noite o vento do teu nome. Um pássaro queima a tristeza, inextinguível. Um grito, um grito rebenta finalmente no meu e no teu peito.

Poema - Amadeu Baptista
Imagens - Katia Chausheva

Nenhum comentário: