"(...) Já não vivo sem ti...", disse-lhe ele há muito tempo atrás...Naquele momento, muda de palavras mas não de sentimentos, escondida por trás do sorriso que lhe disfarçava a fraqueza nas pernas, o retumbar no peito, e aquela incontrolável contração nas entranhas cada vez que o via, ela sentiu o prenuncio da tempestade de prazer e dor que se seguiria. Mesmo entorpecida por aquelas palavras sussurradas por uma alma quase desconhecida que a embriagava como se feita de vapores de absinto, num relampejar de lucidez, ela teve uma mostra do que estava por vir. Definitivamente ele já corria no seu sangue. Não sabe como, mas tinha feito-a cativa, envenenado-a, impregnando-a com delírios suntuosos em que a dor e o prazer se misturavam num amalgama perfeito. Sem perceber, tinha-se tornado viciada nele, assim como acontece a um inteligente e lúcido usuário de heroína, que sabe que não há futuro naquela droga mas, que só se sente vivo com ela correndo nas veias. Naquele momento, ela pressentiu. Pressentiu que nada seria mais como antes, e que ela não mais viveria - apenas sobreviveria sem ele.... E assim foi, assim tem sido, e assim o é...Dia após dia consegue sobreviver com doses homeopáticas dele, mas delira, sonha, anseia por doses maiores. No entanto, paralisa-a o medo, não o medo de uma fatal overdose. Morreria feliz se isso acontecesse. O medo que a paralisa é da dor inevitável da síndrome de abstinência...
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