quinta-feira, 19 de novembro de 2009

E agora José?



E agora Zé? Desta vida saístes vencido, como muitos outros Josés desta vida. Acabo de chegar de (mais) uma viagem e acabo de saber que tu partistes. Prematuramente, dizem todos. Tardiamente, provavelmente dirias tu, como só eu sei. Já o sabia Zé, que um dia nos deixaria, por tua livre e espontânea vontade. Li isto nos teus olhos muitas vezes, quando me falavas, do alto da tua cadeira de rodas, teu único trono nos últimos anos (embora "dono" de muitos ja o tenha sido no passado) , que já não tinhas mais vontade de escrever para o jornal como o fazias há tantos anos, ou que tinhas perdido a inocência em relação aos rumos deste país.

Podia sempre imaginar como era difícil pra ti, que ajudastes a fundar o partido que achavas que iria fazer toda a diferença e que sempre soube que Deus não é brasileiro (ao contrário do que acha a grande maioria dos nossos conterrâneos que aparentemente já nasce com a síndrome de Polyanna). Por saber o tão difícil que devia ser pra ti, eu podia compreender porque preferias te embriagares todo o dia sozinho ao invés de ires para os bares da moda com teus amigos “intelectuais”.

O mais triste de tudo Zé, é saber que fostes encontrado morto enforcado num hotel de terceira categoria, depois de três longos dias. E triste saber que por três dias ninguém notou a tua falta. È triste, Zé. É triste. Muito triste mesmo. Que mais posso dizer, senão que é muito triste. E que eu, não tenho mais nada a dizer a não ser que sinto-me mesmo muito triste. E, se já me senti vazia antes, hoje me sinto muito mais. Infinitamente mais.

E agora eu me pergunto Zé, se eu já o sabia, porque nunca fiz nada para o evitar. Porque eu nunca te disse que talvez ajudasse se enfiasses alguns comprimidos de prozac ou equivalente “nas veias” diariamente ao invés de te deixarem leva-lo pra igreja para ouvir um daqueles sermões sem sentido dos padres e das carolas que eu também sabia que não te diziam nada. Os porquês de eu nunca ter te dito nada, eu não sei.

E sem saber os porquês (talvez até o saiba, mas não quero falar sobre isso agora, já não faz mais sentido) ou sem saber exatamente o que dizer, mas querendo te dizer algo, mesmo sabendo que nunca vais o ler, é que vou deixar aqui um poema do Drummond que sei que tu gostavas muito e uma crônica do Saramago, sobre o mesmo tema. Tenho certeza que se ainda o pudesses ve-los, os apreciaria.

Por ultimo, gostaria de te dizer Zé, que vou sentir saudades tuas, e que, esteja onde estiveres, saiba que veremos-nos em breve. Esta é a única certeza que temos nessa vida. Você sabia disso e eu também Zé. Descanse em paz.
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E agora, José?
(Carlos Drummond de Andrade)

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?"




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E agora, José?
(Crônica de Jose Saramago, retirada do Livro do autor A Bagagem do Viajante. )

"Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas – ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drumonnd de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso do tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora José?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atônitas. “E agora José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo de interminável ladainha que é piedade por nós próprios.
Em todo caso, há situações de tal modo absurdas(ou que pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.
Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drumonnd de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem. “E agora José?”
Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que trem como uma dor contínua. Sei que se chama José Junior, mas mais riquezas de apelido e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. È novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Junior, perdido de bêbado, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente - “E agora José?”
Afasto para o lado meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, avilta-los,fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota-matando sem matar,sob a asa da lei ou perante sua indiferença.Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre.Tivesse ele bens avultados na terra ,conta forte no banco, automóvel a porta-e todos os vícios lhe seriam perdoados.Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira.Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.
Escrevo estas palavras a muitos quilômetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira.Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenômeno geral:o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda parte, uma espécie de loucura epidêmica que prefere as vítimas fáceis.Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados.E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente.Ah, esta vida preciosa que vai fugindo,tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo o que agora és.
Entretanto,José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira.Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa,como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura.A vida vai voltar ao princípio.Será possível que a vida volte ao princípio?Será possível que os homens matem José Júnior?Será possível?
Cheguei ao fim da crônica, fiz o meu dever.” E agora, José?” "

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