
Às vezes, tenho a impressão que quando o conheci, perdi a minha pele,
A pele que reveste, a pele que protege,
Que filtra o que externo,
O que é supérfluo,
O que não importa
Mas que magoa os sentidos.
Sem filtros,
Tudo parece que é a mim dirigido,
Infelizmente, apenas tudo que causa dor,
Raramente o que fala de amor.
E assim é,
Tudo que sinto é superlativo,
Não sei porque,
Doe - me ate o tato do vestido,
Sinto a secura do deserto,
O aço na carne,
A bofetada no rosto,
O jato morno do sangue, no meu corpo a escorrer
Raramente,
Tomo pra mim o que é lindo,
Acho que no fundo,
Nada fiz para o merecer.
Tenho a noite povoada de sonhos,
Ou talvez devesse chamá-los pesadelos,
Vejo anjos com vestes de demônios,
Em cada palavra de amor, vejo seus antônimos,
E em cada palavra de raiva, vejo multiplicados sinônimos...
Tudo isso faz de mim, um não sei o que, um não sei onde,
Nunca sei, onde a verdade se esconde
E de fato, tenho medo,
Tenho muito medo,
Tenho medo de ir, medo de não ser
De chegar, e de uma vez mais,
Sofrer...
Também sei,
Que dores de amor não se mostram no rosto,
Quem me lê, não sei bem se me vê,
Dor de amor é como um cancro insidioso,
Corroem por dentro, mas por fora,
Não há sangue a correr.
Que fazer, com o que me implode, não explode,
Senão constranger com loucas palavras
As vezes outras, mas sempre loucas
Que ousadamente chamo de poesia,
E te dizer que sem pele,
Confesso,
Tenho medo até de água fria.
"Multipliquei-me para me sentir.
Para me sentir,
precisei sentir tudo.
Transbordei,
não fiz senão extravasar-me.
Despi-me, entreguei-me.
E há em cada canto
da minha alma um altar a um deus diferente."
(Passagem das Horas, Álvaro de Campos)
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