quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sem pele



Às vezes, tenho a impressão que quando o conheci, perdi a minha pele,

A pele que reveste, a pele que protege,

Que filtra o que externo,

O que é supérfluo,

O que não importa

Mas que magoa os sentidos.


Sem filtros,

Tudo parece que é a mim dirigido,

Infelizmente, apenas tudo que causa dor,

Raramente o que fala de amor.


E assim é,

Tudo que sinto é superlativo,

Não sei porque,

Doe - me ate o tato do vestido,


Sinto a secura do deserto,

O aço na carne,

A bofetada no rosto,

O jato morno do sangue, no meu corpo a escorrer

Raramente,

Tomo pra mim o que é lindo,

Acho que no fundo,

Nada fiz para o merecer.


Tenho a noite povoada de sonhos,

Ou talvez devesse chamá-los pesadelos,

Vejo anjos com vestes de demônios,

Em cada palavra de amor, vejo seus antônimos,

E em cada palavra de raiva, vejo multiplicados sinônimos...


Tudo isso faz de mim, um não sei o que, um não sei onde,

Nunca sei, onde a verdade se esconde

E de fato, tenho medo,

Tenho muito medo,

Tenho medo de ir, medo de não ser

De chegar, e de uma vez mais,

Sofrer...


Também sei,

Que dores de amor não se mostram no rosto,

Quem me lê, não sei bem se me vê,

Dor de amor é como um cancro insidioso,

Corroem por dentro, mas por fora,

Não há sangue a correr.


Que fazer, com o que me implode, não explode,

Senão constranger com loucas palavras

As vezes outras, mas sempre loucas

Que ousadamente chamo de poesia,

E te dizer que sem pele,

Confesso,

Tenho medo até de água fria.


"Multipliquei-me para me sentir.
Para me sentir,
precisei sentir tudo.
Transbordei,
não fiz senão extravasar-me.
Despi-me, entreguei-me.
E há em cada canto
da minha alma um altar a um deus diferente."

(Passagem das Horas, Álvaro de Campos)


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