E de repente, no fim de um dia qualquer, o susto...O coração bate tão forte e parece que cresce tanto que quer lhe sair pela garganta. De repente, tudo que havia escrito, agora, parecia-lhe sem sentido...Aquela frase, aquela ultima frase não lhe saiu o dia todo da cabeça - "...se não me abandonares, não te abandonarei nunca..." . Agora, ao ouvir-lhe o lamento, não sabe se ri ou se chora da sua eterna e equivocada sede de mostrar tudo o que sente. E constata, tudo tem um preço, tudo deixa um rastro. Sempre morre-se e mata-se um pouco. As mãos, antes ansiosas, agora retraem-se do papel como se lhe queimassem os dedos. Tem medo do que estes possam por ela dizer. Já não confia neles. Já lhe pregara peças antes, escrevendo o que sentia e o que não sentia. De repente, sem forças, deita-se e abraça-se ao travesseiro. Imóvel, sente como seu corpo tivesse apenas dois órgãos – o coração e a vagina, que contraem-se e soluçam num mesmo ritmo. Fecha os olhos. Na boca um dedo, para aplacar fome do beijo. Não sabe quanto tempo se passa, enquanto dentro do ventre, a emoção e paixão se unem, se nutrem, se alimentam como se ligados por um cordão trançado a energia pura. Lentamente, agora, suas coxas apertam firme e ritmicamente o travesseiro. Na imaginação, peles nuas, suores e poros, respiração, sangue e veias. Beijos, juras, corpos que se tomam em sofreguidão. Em breve, seu corpo aflito é quase um só com o travesseiro. Não se passa muito até que tremendo em espasmos suspira o nome dele. Não sabe se chora ou geme, não sabe se é gozo ou ferida, não sabe, apenas sente. Sente e dorme. Aflita. Como sempre. ...
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