É em breves momentos como este, que na pequena
fresta de si mesma que a lucidez me permite que dou-me conta do seu abandono. Largada
a uma loucura invisível, desesperada, incontida
e ao contrário da loucura comum, quieta
mas desperta. Peregrina eterna, do meu cavalo branco lindo e
louco, alado, sem rédeas.
Loucura, não há outra palavra, não devo
temê-la, senão com coragem, encará-la. Não
mais a temo, caminho sem saber que rumo
dar à minha vida e não dou, apenas
sigo-o, seja qual for o dele, será este o meu.
Loucura, deve ser, senão, como explicar as noites insones, dias
inquietos, anos a fio? Como explicar, a falta de interesse por tudo que não seja
ele, príncipe da luz e das trevas, gênio
da lâmpada, a dar e tirar sonhos num piscar de olhos, a transformar-me em
intervalo de segundos, de cinderela a gata do borralho e vice e versa?
Como explicar, pensar nele, toda vez que
respiro, ser dele, todos os meus dias, ser dele, meu ultimo e primeiro pensamento, e
de todos eles, entre o ultimo e o
primeiro? Senhor absoluto das minhas
horas, despertas e adormecidas, é sempre dele
todos os meus suspiros.
Como explicar senti-lo no vento, na chuva que bate
na janela, no calor que abrasa, na beleza de tudo, na tristeza do mundo?
Como explicar, sentir sua pele sem nunca o ter
tocado, sentir seu gosto, sem nunca te-lo beijado, ter seu cheiro no meu corpo
impregnado, e saber, que por mais que eu tente o contrário, serei dele única e eternamente?
Como explicar, passar o dia a adivinhar a sua
vida, se sente frio, calor, o que gosta de comer pela manha, se queijo, ovos,
pão com leite achocolatado, ou não, apenas café amargo? E a noite, em que lado da cama dorme, qual o cheiro da sua almofada, será que está de
bruços ou de costas ? Como será que ele anda, será rápido, devagar, os seus poucos cabelos grisalhos, que cheiro e textura tem, é doce e macia, como imagino? E os pelos
dos seus braços, reluzem como penso, quando o sol o abraça? E o seu ventre e
o seu sexo, que será que gosto tem?
E seu dia como terá sido, foi sôfrego, agitado, viajou? Foi
de carro ou de trem, e a paisagem que ele viu, era verde ou cinzenta, deslumbrante ou desolada? Estava na
janela ou no corredor, será que leu o jornal, e sobre as noticias, o que pensou? Da crise cuja
solução não se avizinha, da sua vida, seus caminhos e descaminhos, preocupa-se com o futuro, será que em algum momento em mim pensa?
Louca sim, não há outra explicação, senão como explicar que o encontro em todos os caminhos, beijo-o em
todas as bocas, amo-o em todos os sexos, respiro-o em todos os ares, sinto-o em
todos os sentidos, canto-o em todas as canções, vejo-o em todas as ondas do mar, esteja quieto acariciando a areia, ou revolto, bramindo raivoso ao encontro das falésias, vejo-o em cada grão de areia, em cada floco de
espuma, sinto o seu cheiro...
Pudesse eu dizer que é estado transitório, enganar
a mim mesma, mais do que já faço, quando ludibria-me a fantasia, e penso ouvi-lo-o a
traçar os meus passos, a sussurrar meu nome em seus lábios enquanto crava sua espada no meu ventre...e me alivia...
Divago...Será que ao final os outros é que tem razão, no seus rasos diagnósticos de obsessão?
Protejo-me do seus julgamentos, guardo minha loucura no mais absoluto segredo, e se me guardo deles a ela me entrego completamente, por quanto tempo queira o tempo. E se o presente espelha o passado, e se o presente prevê o futuro, serei sempre, sempre louca de amor, sempre completamente perdida, por ele.
Enquanto isso, a cada dia mais enlouqueço, firo-me, cicatrizo-me, ando, caio, levanto, cambaleio, dois passos a frente, um atrás, mas sempre olhando em frente, construo meu caminho até ele, com
pedras esquecidas ao largo pelo impossível.

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