Décadas de escuridão foi necessário serem vividasAté que fosse encontrada a luz dos olhos meus
E em vendo tão brilhante luz até então desconhecida
Acostumaram se meus olhos à vida
Então, de repente, não mais que de repente
Por forcas até agora desconhecidas
Num estranho, perverso e descompassado bailado de desencontros
Um manto negro e opaco instala-se
Em meio aos meus olhos e a luz da minha vida
E do o que era só luz, risos e emoção,
Possibilidades, descobertas, louco e prazeroso desvario
Fez-se trevas, dor, escuridão ...
Pois, por mais que sentisse seu calor - sua face não me aparecia
Como se um fino mas opaco manto negro, de chumbo impregnado
Perverso, transmitia o calor, mas não a imagem do corpo que o produzia...
Sem querer acreditar no que pressentia
A ausência tão presente que doía
Meus olhos recusando se a abrir
Rogo aos céus a ignorância bendita
Tentando em vão não ver
O que por trás do manto negro se escondia
E assim, dia após dia, abro os olhos em busca da luz
E em não a vendo, conforta-me pensar que são apenas negras nuvens a tapar me o sol da tua luz Mas como um demônio a perturbar me a alma
O maldito entendimento que sempre me chega inexorável como o tempo,
Me mostra uma odiosa visão
Obrigando me a ver, o que, mesmo sem querer,
De mim mesma escondia
É assim que naquele maldito dia
Através do manto negro, opaco, vejo a razão da escuridão
O senhor da minha luz com um venda espessa de espinhos de cerrar me os olhos
Impedindo me a visão da sua luz branca que me enchia
E em seu lugar espinhosa venda a me ferir a retina
De dor e medo de sentir tão aguda dor
E o seu áspero contato quando em mim colocada
É que, para proteger meus olhos da cegueira eterna
Que viria caso o áspero contato sentisse de novo
É que fecho os meus olhos e bato em retirada
A evitar a morte diária consentida
Qual louca kamikase numa viagem empreendida
Que num misto de paixão me tira a razão e
Inflijo a mim mesma uma cegueira piedosa
É assim que preferi não mais tentar abrir meus olhos
Preferindo a ignorância de não saber
Se a minha luz brilhava ou não para outros mundos
Do que ter que experimentar a dor mortal
Causada pelo o toque do áspero véu de novo
Sobre a fina pele da minha retina
De pupilas fechadas mas coração eternamente aberto
Abrirei meus olhos de novo apenas quando
De uma voz clara e forte ouvir
Que a venda dos meus olhos foi retirada...
Pois não sei se a fina córnea resistiria
Ao áspero toque da venda ali colocada...
(RPC, 6 de outubro 2008)
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