
Que ruído é este que ouço ao relento
Talvez, um leve abraço do vento,
Ou apenas falam alto, os meus pensamentos?
(povoados sempre de tua sombra, vida minha,
minha fonte de vida e de todo o tormento).
Se fores tu, pergunto: Que fizeste comigo, vida minha?
Fizestes me nascer e qual mãe desnaturada
Jogaste-me fora ainda criança de fralda
Destes me a vida, e nem me quis ver crescer.
Trancastes tuas portas comigo lá fora
E ao relento, deixaste- me a morrer...
Se não querias dar vida à minha, vida minha
Porque me fizestes nascer?
Vida minha, vida minha!
Se tu pudesses compreender
Que te quis mais do que jamais poderei entender
Que te quis mais do que jamais poderás entender
E ainda assim, se me perguntares o que eu quis
Dir-te-ei : Não sei, só sei que te quis
Muito mais do que aqui eu possa dizer
Muito mais do que eu podia ousar querer
Mas que eu não podia, eu não sabia...
Quis tua luz, teu calor, tuas cores
Teu sangue, saliva, suores, sabores
Tuas dores, teus laços, teus nós
Teu colo, teus vícios, lençóis
Tua alma, teus medos e sonhos,
E mais que tudo,
Teu amor por mim, vida minha,
Ah! Quis de ti, um amor sem tamanho...
Quis teu corpo, fundo dentro do meu
Dia e noite, em delicias se acabando
Horas e horas meu nome gritando
Na loucura, no prazer e na dor
(Pois que a dor é parte do amor)
Nós, uma mistura indivisível, ano após ano...
E embora de tudo, vida minha, de ti eu quis
Ainda assim, sabes que nada nunca pedi
Talvez porque achasse,
Que aos meus apelos, nunca irias ouvir.
Foram dias e dias, mais que mil dias
A me enganar que estavas a sentir-me
Sobrevivi, a engolir meus próprios beijos
Fundo, like a thousand kisses deep...
Seguindo apenas a cantar-te o meu canto
Pois que cantar-te vida minha,
É o que me restou como acalanto
Pois que sabes, só respiro quando canto-te
Sobrevivendo, dos momentos me alimento
Nos segundos que estás a ouvir-me.
E agora vida minha, morta de cansaço
Cresce sobre mim uma espessa couraça,
De tanto arrastar-me nas calçadas
Tecida anos em fios dos teus silêncios.
Ouvindo ao longe, sopros lançados aos céus
Pétalas de rosa, lágrimas de pratas
Que dedicas à outra vida, por ti querida, amada
Lamentos, cheios de sentimentos
Que me faz ficar calada,
E ainda mais trancada.
E eu te digo vida minha,
Os sopros que lanças ao vento,
Traz-me tanto amargor por dentro,
Que mais disso não agüento.
Hoje vida minha, vi uma luz no fim do túnel
(Isto é, se não me engano, pois o faço amiúde)
Era tênue, como um pequeno vagalume
E que tremulo mostrava-me um rumo,
Como a chamar-me a renascer
Quase sucumbo, mas não me iludo,
Mil vezes já vi esta semente de luz
Brotar, para logo depois morrer.
E de pensar que já tentei tanto, tanto
Ter-te plena, vida minha
Tentei, ainda que desajeitada
Correndo sem pernas, voando sem asas
Fiz tantas coisas, algumas em que nem acreditava
E se pelo menos eu soubesse, que nada disso adiantava...
E agora vida minha, pedes-me para não fenecer
Como poderia, se me fizeste nascer
Mas não me ensinastes a sobreviver...
Se o teu sopro fértil a muito que não ouço
Algo que me tirasse deste estéril fosso
Logo agora, que me acostumei a não te ter
Suspiras em meu ouvido,
Uma esperança de renascer.
É porque te amo tanto é preciso que eu te diga
Pois vida minha, a morte, de nós, rápido se avizinha
E ainda que me doa, doa tanto, não sei se imaginas
Digo-te, se é teu desejo, viva, siga o canto da sereia,
Se ela é quem te dá felicidade e vida
Pois eu, digo-te, preciso morrer,
Pra que um dia, eu poder renascer.
Segue tua vida com quem te traz felicidade
Que a minha seguirei sem quem me faz viver -
Você.
(Vida minha, quando irás compreender,
Que ter a ti, mas não ter o teu amor,
É o mesmo que não te ter?)
(Imagem de Ed Munch, "Amor e Dor".)
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