pressionadas tão fortemente de forma que as linhas
(do coração, da cabeça, e da vida) se juntassem
e se tornassem linhas únicas em profundidade, sentido e direção...
A seu convite, tínhamos nos encontrado no final da tarde num restaurante conhecido situado na cabeceira da ponte. Chegou um pouco atrasado e desculpou-se pelo trafego. Não perguntei o porque do convite. Esperei que falasse, mas ele não falava, exceto sobre o tempo, e como estava frio e seco, e como a neblina tinha lhe atrasado na estrada. Brinquei dizendo que o frio excessivo tinha me atacado a artrite - coisas da idade. Rimos.
Passava-se o tempo e ele nada dizia sobre a razão do encontro. Se ele sentia-se como eu, na verdade, não era preciso nenhuma razão especifica, além da principal, ou seja, matar a infinita saudade que tínhamos um do outro. Mas a gente sempre cria razões para tudo não é verdade? Mesmo quando não são necessárias.
Aos poucos percebi que havia algo estranho no ar. Por mais que pensasse eu não conseguia compreender o que seria. No entanto, era óbvio. Embora nem sempre entendesse o que dizia (era denso, maravilhosamente metafórico e não raramente enigmático, o que me encantava) - tinha aprendido a ler sua linguagem corporal. Percebi que evitava olhar-me de frente. Embora como sempre molhados, sob os cílios grossos que pareciam cortinas de veludo negro, seus olhos moviam-se para além de mim, como a procurar alguém mais escondendo-se atrás das minhas costas. Quando seus olhos encontrava os meus, retirava-os rapidamente, como se o fato de me fitar por mais um segundo o fosse fazer cair num abismo. Não entendi seu receio, não compreendia. Afinal, ele sempre soube que abismo era o que me definia, assim como a ele. Em momentos como estes queria ter-lhe dito que o alguém que ele procurava não estava atrás de mim, e sim, logo ali, aonde ele evitava olhar.
Enquanto conversavamos, fitava-lhe as mãos (lindas!) cerradas que lhe escapavam por sob o punho da camisa branca (tenho frequentemente este desejo de ter seus dedos na minha boca um a um! Não sei porque, mas ele tem este poder de despertar em mim desejos loucos!). Pensei em tocá-las. Queria tocá-las e fui deslizando hesitantemente e vagarosamente as minhas em sua direção. Parei antes de concretizar a ação - queria muito fazer isso mas não as queria fechadas. Queria-as espalmadas. Tinha este desejo de espalmar as minhas mãos contra as dele, sabes, assim, espalmadas e pressionadas fortemente de forma que as três linhas principais (a do coração, da cabeça, e da vida&destino) de nós dois se juntassem e se tornassem linhas únicas em profundidade, sentido e direção. Sei que parece louco e não factivel, mas é o que sinto.
É preciso que se entenda, que não queria possuir as suas mãos entende? Queria apenas que ficassem juntas, mesmo que em linhas paralelas que só se interceptam no infinito. E porque não queria possuir as suas mãos? Porque penso que todos nós precisamos ter o controle das nossas próprias mãos para escalar aos céus ou afundar nos abismos que preferirmos. Eu queria, isso sim, nossas linhas cimentadas, mas somente as linhas, não as mãos... Mas ele não as abriu . Eu então, antes que percebesse o meu movimento, decidi guardar as minhas embaixo da mesa, da mesma forma como escondi desde o primeiro momento em que o vi, meu desejo de cimentação, de união.
Senti vontade de dizer que queria que ele confiasse em mim. Queria que ele soubesse que eu não oferecia nenhum perigo. Nada lhe pediria que soubesse que ele não o tinha para dar. Que eu não tinha nada, mas o pouco que tinha era dele. Tudo mesmo, sem nenhuma reserva, não apenas minhas estrelas, como também minhas nebulosas, meus buracos negros, e que de tempos em tempos, que eu saiba, são tão grandes quanto os dele e que, para fugir deles, descobri atalhos e que por isso mesmo, podia ajudá-lo a percorrê-los.
Queria ter-lhe dito também, que há sempre algo que nos atormenta a noite e este algo é muito mais que os demônios que habitam nossos pesadelos. São os anjos, os anjos ou fantasmas dos desejos não realizados que nos tiram o sono e nos fazem atravessar a noite escrevendo como maníacos, assaltando a geladeira e embriagando-nos de leite quente. Com o meu anjo, ou fantasma, apesar do tormento, aprendi a conviver - na verdade, já nem mais consigo viver sem ele - nem a noite, nem durante o dia. É o meu fantasma favorito, e que, entre todos que me atormentam, o único que me faz falta.
Por vezes, sua expressão mudava. Ficava calado e me olhava como se quisesse me rasgar. Eu também o olhava assim. Queria rasgá-lo, queria-o transparente, queria-o nu. Daria tudo pra saber o que se passava dentro dele, mas nada perguntei, e ele também de mim nada quis saber. Talvez isso não importe, pois já sabemos de fato o que é importante.
Em retrospectiva, penso que queríamos ambos perguntar-nos tambem sobre segredos, mas não tivemos coragem. Sei que os tem, tanto quanto eu. Como diz um trecho da canção My Secret Life do Leonard Cohen: eu sei o que é certo, eu sei o que é errado, mas faço o que tiver que ser feito para sobreviver. São estes segredos, eu acredito, que fazem com que mantenhamos como nossas, as nossas mãos. Segredos podem ser estratégias de sobrevivência. E no final, cimentos para as linhas, não precisam de compartilhamento de segredos para se fixar – apenas de vontades e é claro, de estar escrito nas estrelas.
O final da tarde transforma-se em noite. Decidi que não iria perguntar por que me tinha chamado até ali. Seria uma pergunta completamente irrelevante no contexto das coisas. Em silencio caminhamos lado a lado em direção à garagem. Meus ombros se roçam nos dele e o desejo que me vem é tão grande que sinto como se fosse desmaiar. Faria amor com ele ali, no chão, em qualquer esquina, em qualquer calçada. Quis beijá-lo, mas não o fiz, quis abraçá-lo, mas também não o fiz. Dizer que sou louca por ele – nem pensar – trancar-se-ia ainda mais como um caracol com frio. Não sei te teve vontade de fazer o mesmo. Como saber? Finalmente, falamos as palavras de sempre sobre como tinha sido bom nos vermos. Dissemos um ao outro "até logo" e partimos cada qual para o seu lugar.
(Rosa Purpura do Cairo, 14 de dezembro de 2011)
2 comentários:
Belo texto, um pouco metafórico mas interessante.
Se me permite, acabaria assim: " ... Na despedida um "até logo" ficou no ar... "
Beijos
J.
Olá J.,
Este teria sido de fato o final perfeito...sinal de que histórias de amor se escreve melhor a quatro mãos.
Beijos
V.
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