Para que me vejas, dispo-me de tudo,Dispo-me das roupas, dos véus e dos mantos,
Dispo-me dos enfeites, das jóias, carmim,
Dos medos, dos ódios, sentimentos humanos,
E de tudo que não é divino.
Para falar-te, calo supostos amigos,
Deusas aladas, flores de plástico pintadas,
Frases de amor copiadas, de bocas que não a minha,
Calo canções que embora pungentes,
Não foram feitas pra gente.
Para tocar-te, corro qualquer perigo,
Descalça ando sobre rochas pontiagudas,
Nua, danço ao redor da fogueira,
Sem braços, nado em mares bravios,
Sem asas, vou de encontro às nuvens,
Sem cordas, me lanço ao abismo.
Para falar-te, canto em todas as línguas,
Aquelas que sei, e as que não sei,
Viro-me em verso e reverso,
Em feixes de carne me abro,
Minha alma te mostro rasgada,
Meu corpo deixo morrer a míngua.
Para que te vejas, torno possível o impossível
Transformo em espelho minha alma
Banhando-a de luz e de prata,
Transparente, sem julgamento
Para que a fortaleza tua vejas sem sombras,
Mirando-te nele e vendo o que vejo.
Verás um ser complexo e único
Maior que tudo que já vistes
De tão belo mais que humano.
E embora por fora vejas carne sedenta
Clamando por luxúria aos gritos,
Por dentro, verás um diamante,
E não o fraco granito.
E quando enfim de verdade te veres,
Em mil pedaços harmoniosos
Inteiro, forte, maior que tudo
Para sempre longe do lodo,
Faça dos meus braços teu ninho,
Para que juntos morramos de gozo.
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