Como uma onda suave e silenciosa
Numa noite de preamar
Deixo-te flores a porta
E volto pro leito a sonhar
E enquanto me pergunto se gostas
Das flores que te deixo lá
(que decerto nem sempre são rosas
de beleza popular)
Mas orquídeas, flores raras
Difíceis de encontrar
São diferentes, sei que são
Mas meu amor, te garanto
Iguais não encontrará
Decerto são flores estranhas
Nem todos a sabem apreciar (muito menos a cultivar)
Longe da ribalta, da rua, do óbvio
Florescem deslumbrante é nas sombras
Das matas úmidas e altas
Em mil mistérios a ocultar
Por ser tão rara e diferente,
É pouco apreciada
Pelas hordas de comuns viventes
Pois não a podem encontrar
Em quiosques na calcada
Mas, repare como ela se mostra
Em sua nudez e transparência - imperfeita
Inteira – flores, caule, raízes
Esta flor não esconde nada
Nem mesmo suas raízes tortas,
Não mostra apenas a face,
Mas também as suas vísceras
Como todo ser vivente
É que a beleza da orquídea
Não reside apenas na flor
Mas no conjunto da planta inteira
Florescem apenas uma vez
Mas é de perene duração
E se a tratam com carinho
Nunca abandona a arvore
Que a ela deu a vida
Enquanto reflito sobre a beleza
Do raro, único, intenso, diferente
Penso no amor que sinto
Se é verdade ou um mito
Neurose, obsessão
Doença, sanidade, razão
Se o amor tem que ser como rosa
De receita comum universalmente aceita
Ou como orquídeas que caladas e nas sombras
Produzem beleza e perfume divinos
Dando-se apenas para aqueles
Que a vêem com o coração
Ousando trilhar um caminho pouco usado
Desafiando a verdade dos (pré) conceitos
De beleza, normalidade, loucura e razão
Pelos comuns assim aceitos
Quantas vezes já não me perguntei
Sempre a mesma pergunta errada
Se meu amor é doença ou saúde
Morte ou vida, negra luz
E em pensando sempre
A mesma resposta me chega
Que não deve ser esta a questão
E sim sentir o nirvana a que chego
Com tão intensa atração
Hoje sinto que não importa
O nome que a ela se dê
Nem mesmo que se classifique
Que se entenda ou que se analise
Deste gozo sem normas e sem lei
Não quero nem mesmo
Saber a razão ou porquês
Só quero saber que ao vê-lo
Obsessão, neurose ou divino
Sinto que em nele encontrei
O meu paraíso perdido
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